A importância da crítica




A importância da crítica

Introdução:

Afinal de contas: o que significa criticar? O que é ser crítico? Por não compreender bem o que significa o termo “crítica”, algumas pessoas tem uma visão não muito favorável sobre a crítica. Essa visão deturpada sobre o conceito de crítica tem gerado uma série questionamentos e dúvidas. Será que toda crítica é destrutiva? No contexto atual do cristianismo ser crítico indica frieza espiritual ou ausência de atitudes práticas? O objetivo dessa reflexão é exatamente compreendermos o que é a crítica, sua importância nas relações interpessoais e sua relevância na construção do conhecimento. Além disso, vamos compreender melhor o fenômeno que denomino “banalização da crítica” e compreender a influência das redes sociais e da internet na propagação desse fenômeno.

Qual o significado do termo “crítica”?

Proveniente do grego kritiké, tendo chegado a nós através do latim, o verbo “criticar” deriva do indo-europeu krinein, que significa separar, escolher. No sentido físico significa separar o joio do trigo. Na passagem para o grego e o latim, e daí para as línguas modernas, o vocábulo ganhou a acepção que tem hoje: “avaliar com competência, distinguir o verdadeiro do falso, o bom do mau etc.” (Dicionário Houaiss). É essa a ideia básica presente em palavras como crise, crivo, critério, decreto, discernimento. Compreendemos que criticar é um dos mais elevados exercícios do pensar, por meio do qual o homem se esforça por atingir diante das coisas o máximo possível de objetividade, a fim de que juízos de valor sejam emitidos com equilíbrio e justiça. Não é, portanto, um ato praticado “contra” ou “a favor”: é um ato neutro. Não é esse, porém, o sentido que vigora entre as pessoas. Para nós, criticar significa “apontar defeitos, falar mal, denegrir”, embora como visto na própria origem do termo critica tem uma conotação de examinar, avaliar, discernir, etc.

Como a crítica é vista pela igreja moderna?

Qual a posição do cristão em relação às criticas? É pecado criticar? Critica é murmuração? Criticar algo ou alguém representa rebeldia? Crítica é algo maligno? Enfim, há uma gama de assuntos que podem ser debatidos sobre o tema. Porem pretendo mostrar até o final deste texto que se criticar fosse algo ruim, o próprio Deus Pai, Jesus, os apóstolos, a Igreja primitiva, os reformadores e outros cristãos, que no passado, trataram de forma extremamente séria os assuntos da Igreja, estariam errados.

Venho percebendo, que de uma forma bem sutil tem sido ensinado nas igrejas neo pentecostais que criticar é algo errado, que demonstra “espírito de rebeldia”, frieza espiritual. Porém o real objetivo por traz desse ensino no mínimo tendencioso é exatamente blindar lideres de críticas, sob o falso argumento de que “não toqueis nos ungidos de Deus”. As pessoas têm sido doutrinadas a acreditarem e seguirem cegamente o que é ensinado em nossas igrejas, mesmo que esse ensino não tenha base Bíblica. Igrejas passam a se organizarem como empresas, seguindo uma hierarquia de cadeia de comando onde no topo estão os apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres e na base estão os “cristãos comuns”. O que for ensinado pelos líderes passa a ser inquestionável e mesmo que o líder esteja em pecado, ou ensinando uma heresia, não cabe às ovelhas criticar esses líderes, devendo estas apenas orar por eles. Posso citar alguns exemplos de frases prontas que muitos citam na internet para negar a importância da crítica:

Você conhece alguma obra de crítico? Você conhece alguma coisa que crítico construiu?”.

“Realmente vivemos em um mundo onde os críticos cristãos também querem se engrandecer por isso utilizam das críticas para fazerem seu nome.”

“O tempo que você perde criticando, é o mesmo que poderia estar edificando”.

O tom dos comentários deixa claro que, aos olhos de muitos, ser crítico, ou seja, ter senso crítico no universo cristão é desqualificador, sintoma de inveja, de apatia, de inoperância ou de qualquer coisa do gênero. Se você acredita nesse tipo de pensamento, sinto em dizê-lo que não é esse o padrão que Deus deixou a sua igreja. O cristão que critica quem faz crítica, talvez não saiba que seu tipo de pensamento é resultado de uma enorme ignorância bíblica e histórica. Pois, em especial no caso do Cristianismo, se não fosse à crítica, à banda séria e sólida da Igreja hoje talvez nem existisse. Os críticos vêm ajudando a manter a sã doutrina ao longo dos séculos, a preservar a ortodoxia cristã e a corrigir os erros cometidos na jornada. Os profetas eram críticos em potencial. Deus mandava um recado e lá ia uma crítica a Jezabel, Davi ou qualquer outro que estivesse em pecado ou cometendo erros. Natã não usou meias-palavras ao criticar o que Davi fez com Urias. Elias dava boas cajadadas nos reis de Israel. Imagine então Eliseu, que tinha porção dobrada. E o maior dos homens nascidos de mulher (Mt 11.11), João Batista, era tão crítico que Herodias disse a sua filha que pedisse a Herodes a cabeça do profeta, de tanto que ser criticada lhe incomodava.

Vamos agora às epístolas. A grande maioria delas foi escrita como forma de criticar atitudes erradas que vinham sendo adotadas nas igrejas a que foram destinadas, com o objetivo de instruir os cristãos e de consertar os erros. Que, aliás, deve ser a finalidade de toda crítica. O apóstolo João escreveu suas três epístolas para combater um grupo de cristãos hereges chamados gnósticos e ele os critica duramente: “Mas todo espírito que não confessa Jesus não procede de Deus. Esse é o espírito do anticristo acerca do qual vocês ouviram que está vindo, e agora já está no mundo“.

Em Colossenses, Paulo critica os falsos mestres que tentavam combinar elementos do paganismo e da filosofia secular com as doutrinas cristãs, induzindo a um relativismo religioso. Em Filemon, ele critica a falta de perdão. Em Romanos, tece muitas críticas, entre elas à dureza do coração, a desobediência à verdade, à hipocrisia, à adoração de ídolos. Em 1 Timóteo, o apóstolo critica o excesso de eloquência em detrimento da busca do Senhor. E quem acha que nas epístolas Paulo não critica pessoas, em Gálatas o foco está nos judaizantes, e principalmente na postura de Pedro, criticados por afirmarem que os gentios, para serem salvos tinham que ser circuncidados e guardar todas as leis de Moisés.

A carta de 1 Coríntios é um caso à parte, tantas são as críticas que Paulo faz, a título de instrução. Ao mau uso dos dons, à imoralidade sexual, às pessoas que celebravam a Ceia do Senhor de modo equivocado e por aí vai.  Merece especial atenção 2 Coríntios, em que Paulo critica veementemente os falsos mestres que buscavam enganar os cristãos da igreja, afastando-os dos verdadeiros propósitos do Evangelho. Já Tiago tece críticas: ao formalismo, ao fatalismo, à crueldade, à falsidade, ao partidarismo,  à maledicência, à jactância e à opressão. Judas, por sua vez, critica os mestres imorais e as heresias da época.

Dia após dia, surgem novas heresias dentro de nossas igrejas. Pastores-poetas que inventam que Deus não interfere nas tragédias, pastores emergentes que dizem que Jesus é desnecessário para a salvação. Unções de 900 reais, Teologia da Prosperidade, Liberalismo Teológico e outras agressões à Palavra de Deus. Fora as atitudes não teológicas, como mercantilização da fé, a criação de celebridades gospel, dentre outros.

Diante de tudo aqui exposto, fica o seguinte questionamento: devemos abandonar o senso crítico? Devemos parar de criticar o que está errado? Devemos ficar passivos com tudo que vem ocorrendo em nossas igrejas? Não. Devemos nos posicionar. Temos como exemplos de Deus aos teólogos modernos (como Alister McGrath, que escreveu O Delírio de Dawkins, criticando o ateísmo de Richard Dawkins). Se a Igreja que ama a Cristo e a Bíblia, se calar, a situação ficará ainda pior do que já está. Quando há uma heresia? Vamos criticar. Há um abuso dentro da igreja? Critiquemos. Há celebridades enganando o povo de Deus? Critiquemos.

Criticando a “crítica”

A frase acima parece uma contradição, porém deixe-me explica-la melhor:

Na introdução desse estudo citei um fenômeno moderno que denomino “Banalização da crítica”. Esse fenômeno a meu ver se intensificou com o surgimento da internet e principalmente com as redes sociais. Esse fenômeno é gerado por uma falsa impressão de domínio do conhecimento. Hoje uma pessoa lê meia dúzia de livros sobre determinado tema e já se acha apta a debater com pessoa que tem anos de experiência e conhecimento sobre o mesmo tema. Hoje pessoas que nunca se interessaram por política, por exemplo, por lerem noticias que viram no jornal (sem nem saber a confiabilidade da informação) tecem críticas ou juízos de valor sobre aquele assunto como se fosse “Ph.D. no assunto.”

Além disso, o uso da internet e redes sociais geraram um distanciamento físico das pessoas, mas uma maior aproximação e exposição no mundo virtual. No mundo virtual é mais fácil se proteger ou esconder-se atrás de opiniões dos outros. Nas redes sociais você tem mais tempo para elaborar críticas. O que é mais contraditório em tudo isso é que as pessoas passam a ter um tipo de “dupla personalidade”. Por exemplo: Nas redes sociais as pessoas se sentem mais seguras e protegidas para tecer críticas a outras pessoas e até mesmo ofensas pessoais. Esses ataques podem ser realizados de forma direta ou indireta. Pessoas tecem críticas sobre falas ou comportamentos de alguém, sem citar nomes, mas para quem lê fica claro a quem a crítica se refere. Porém quando as pessoas tem um contato presencial não conseguem estreitar relacionamentos nem demonstrar quem realmente são. Nas redes sociais as pessoas parecem ser mais amorosas, espirituais, comprometidas com Deus, porém lembremos de que na internet a maior parte das pessoas demonstra o que gostariam de ser, e não o que são de verdade.

Conclusão:

Concluímos que a banalização da crítica, nada mais é do que ser crítico de tudo, achando que criticar é falar mal, denegrir, apontar erros, porém como já visto essa é uma visão distorcida sobre o papel da crítica. Devemos ter em mente o seguinte: “criticar sempre de forma a construir e nunca destruir” e “toda crítica tem que ser feita de modo cristão e bíblico”. Se formos agir como o mundo age, não seremos melhores do que os críticos que desejam apenas a discórdia e desunião. Não seremos sal nem luz e é melhor que sejamos lançados fora para sermos pisados pelos homens. Nunca devemos criticar como o mundo critica: com agressões, ofensas, xingamentos, gritarias e argumentos equivocados ou ataques. Devemos seguir os passos do Mestre. Ser mansos e humildes de coração. Devemos criticar como se cada crítica fosse um tijolo posto para erguer uma catedral e nunca como se fosse uma marretada para derrubar paredes.

Graça e paz sejam com todos. Amém.





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1 Resposta para A importância da crítica

  1. Maria do Carmo L

    Amei seu artigo! Parabºens! Continue Deus está usando Vc!

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