Atos proféticos: Comando de Deus ou invenção humana?

Atos proféticos: Comando de Deus ou invenção humana?

Introdução:

Tratar do conceito de “atos proféticos” é buscar, antes de tudo um entendimento pleno do ministério profético, do papel dos profetas na antiga e na nova e eterna aliança. Não há como compreender, pois, o que é um “ato profético” sem antes entender as características do ministério profético no Velho e no Novo Testamento. Consequentemente, a grande questão que surge para aqueles que não estão muito acostumados com a leitura e entendimentos bíblicos, é a seguinte:

Há diferença entre o ministério profético do Velho e do Novo Testamento?

Com certeza.  O ministério profético do Antigo Testamento tem como finalidade principal a preparação da humanidade, em especial, do povo de Israel, para a manifestação de Cristo. Isso porque o clímax da revelação se cumpre em Jesus. Nesse sentido o apóstolo Paulo nos diz que “vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4). O fato de Paulo denominar aquele momento como “a plenitude dos tempos”, está no reconhecimento que, por meio de Cristo e dos apóstolos, a revelação de Deus, dada aos profetas alcança seu ápice.

É evidente que o ministério profético na Antiga Aliança dispõe-se de outras finalidades. A linguagem profética comum da Antiga Aliança revela características não presentes na Nova Aliança. Vemos no Velho Testamento, por exemplo, expressões como: “Veio a Palavra do Senhor…” (Gn 15.1; 1Sm 15.10; 2Sm 7.4; 2Sm 24.11, etc.) o que não ocorre no Novo Testamento. Também percebemos a mensagem profética do Antigo Pacto por meio dos ritos sacerdotais e até mesmo das festas e comemorações do povo hebreu, as quais, em sua grande maioria, apontam para a obra redentora do Mestre (Ex 12; Lv 1; etc.).

Na Nova Aliança, a mensagem profética é mais acessível. A conclusão disso tudo é que, no Novo Testamento, já não se fazem necessários a maioria dos ritos sacerdotais, legais e proféticos contidos no Velho Testamento. O próprio escritor aos Hebreus em Hb 8.4-13 lança luz a essa questão. Vemos nesse texto de Hebreus que o próprio rito sacerdotal é apenas uma sombra do que a nós foi revelado. Ora, se é uma sombra, a partir do momento que nos são revelados os mistérios de Deus, que é a manifestação de Cristo, não há mais necessidade de tais ritos como prática cristã. A Palavra nos informa, pois, que a prática dos rituais do Antigo Testamento, bem como dos “atos proféticos” ali encontrados, não alcançam mais respaldo na Nova Aliança. Agir de modo diferente é reerguer o véu que já foi rasgado pela morte redentora de Cristo.

Compreendido o papel dos profetas no Antigo e no Novo Testamento, passaremos então a discorrer sobre os “atos proféticos” propriamente ditos.

O que são atos proféticos e qual sua função?

Segundo a compreensão de parte das igrejas que adotam tais práticas, atos proféticos são “ações visíveis realizadas no mundo físico que possuem implicações espirituais e tem por finalidade gerar o agir de Deus em favor de uma causa ou propósito específico.”.

Um dos principais entusiastas dos atos proféticos no Brasil, Renê Terra Nova, em seu livro intitulado “Atos proféticos, comando de Deus ou invenção humana?” define assim os atos proféticos:

“- Mas, o que é um ato profético? É uma expressão, uma atitude visível da Igreja que tem uma referência e um respaldo no mundo espiritual. Digo que o ato profético é uma mensagem enviada ao reino do espírito que ratifica a ação da fé e da Palavra”.

Seguindo a lógica da definição dos atos proféticos, entendemos que eles são “mensagens enviadas ao reino do espírito” e que, além disso, seu objetivo é trazer à existência no mundo físico aquilo que foi profetizado. Porém farei aqui uma afirmativa que com certeza irá deixar muitos cristãos no mínimo inquietos, mas antes que você decida parar de ler esse texto, respire fundo, continue refletindo, não em argumentos persuasivos, mas sim na Palavra de Deus e você mesmo chegará a uma conclusão a que muitos cristãos têm chegado.

Não há respaldo na Bíblia para esses tais “atos proféticos”.

No Antigo Testamento há atos proféticos, mas não moldes dos que ocorrem em muitas igrejas neopentecostais de nossos dias. Vamos recordar a definição dada por Renê Terra Nova:

“- Digo que o ato profético é uma mensagem enviada ao reino do espírito que ratifica a ação da fé e da Palavra!”.

Terra Nova apresenta sua primeira “prova” de que atos proféticos são bíblicos, valendo-se de Gênesis 3. Ele faz a seguinte afirmação:

“- Você sabia que em Gênesis 3, quando Adão e Eva se esconderam atrás das folhas de figueira, Deus estava apontando para a cruz?”

Todo cristão sabe que Gênesis 3 aponta para a Cruz de Cristo. Terra Nova não fala qualquer novidade aqui. Mas onde está um ato profético nessa passagem? Se um ato profético é uma “mensagem enviada ao mundo do espírito”, onde encontramos tal coisa no texto de Genesis 3, ou em qualquer lugar das Sagradas Escrituras? O que encontramos em Gênesis 3 não é um ato profético, nem um ritual de manipulação do mundo espiritual, mas uma tipologia, ou seja, um evento histórico que simbolizava a obra de Cristo. Seu objetivo era ensinar ao povo de Israel sobre a realidade que estava por vir. Por esse motivo o Novo Testamento chama o Velho de “sombra”, pois é composto de eventos históricos, e da ritualística da Lei, que simbolizavam a realidade futura, feita presente na manifestação de Jesus. De modo que, os símbolos do Antigo Testamento não eram atos proféticos que enviavam mensagens ao “mundo do espírito”, mas sim, símbolos que transmitiam mensagens aos homens, visando ensiná-los a Verdade.

Contudo alguns simpatizantes dos “atos proféticos” podem afirmar que há sim na Bíblia atos proféticos. Como argumento podem até citar como ato profético, por exemplo, o texto de Ezequiel 37: 15 a 22, onde a Bíblia mostra que o profeta juntou em sua mão dois pedaços de madeira. Em um estava escrito o nome de Judá e no outro o nome de Israel. Após isso o profeta juntou os dois pedaços de madeira em uma só mão, simbolizando profeticamente que esses dois reinos no futuro seriam apenas um e que nunca mais se dividiriam. Isso ocorreu? De fato essa profecia teve seu cumprimento pleno após a Segunda Guerra, quando em 1948 as últimas tropas britânicas se retiraram dos territórios palestinos e os judeus declararam a criação do Estado de Israel, de acordo com o plano de 1947 da ONU.

Todavia, o texto de Ezequiel não se assemelha em nada aos atos proféticos realizados hoje em muitas igrejas. Em primeiro lugar o que o profeta Ezequiel fez não foi “enviar uma mensagem ao reino do espírito”. Na realidade o que ocorreu aqui foi o contrário. Houve uma mensagem enviada do reino espiritual, ou seja, de Deus para o mundo físico. O profeta não fez um ato profético, motivado pelo desejo de que tal ação gerasse o mover de Deus, mas obedeceu a uma ordem expressa de Deus, realizando uma ação visível que simbolizava algo que o próprio Deus já havia determinado que acontecesse.

Você acredita que um ato profético tem a mesma inspiração e respaldo que as profecias do Antigo e do Novo Testamento?

Se sua resposta for sim então medite sobre o texto abaixo descrito no livro de Deuteronômio 18:22 que diz:

“- Quando o profeta falar em nome do Senhor e tal palavra não se cumprir, nem suceder assim, esta é a palavra que o Senhor não falou; com presunção a falou o profeta; não o temerás.”

Concluímos que se um ato profético for realizado em nome de Deus, mas este não tiver cumprimento, quem praticou tal ato pode ser tido como presunçoso e essa palavra não veio de Deus.

Ainda mais vergonhosa é a tentativa de identificar atos proféticos no Novo Testamento. Sobre isso Terra Nova declara:

“- A pregação do Evangelho, o batismo nas águas, a ceia do Senhor, a unção com óleo, o dízimo e a oferta são atos proféticos que serão realizados pela igreja, até que o Messias volte”.

Desde quando enviamos mensagens ao mundo do espírito quando comemos do Corpo e do Sangue de Cristo? Desde quando enviamos mensagens ao mundo do espírito quanto somos conduzidos as águas do Batismo? Qual lugar da Escritura ensina tal coisa? O ensino bíblico sobre a Ceia, por exemplo, é que a mesma consiste numa proclamação publica (feita aos homens) da mensagem do Evangelho (I Cor. 11.26). Transformar o Culto em uma mensagem enviada ao “mundo do espírito”, a fim de manipular forças espirituais, é paganizar a fé cristã. O que a simbologia bíblica reflete é uma pedagogia divina, e não atos proféticos realizados no intuído de mover a mão de Deus a nosso favor.

Não vejo problema em haver profecias no meio da igreja. A Bíblia em 1 Co. 14:1 nos diz que devemos sim profetizar, mas no mesmo capítulo no versículo 29 está escrito:

“- E falem dois ou três profetas, e os outros julguem.”

Quem faz isso nos dias de hoje? Quando alguém profetiza algo, ou então faz algum ato profético você julga esse ato? Quando falo aqui de julgamento, não me refiro a ser crítico de tudo, mas sim de ter o zelo em relação à Palavra de Deus para saber se tal profecia realmente é genuína. Acredito que em boa parte das igrejas há pouco espaço para o cumprimento desse mandamento de julgar a profecia, pois quem faz isso logo é taxado de “rebelde”, “crítico”, alguém que não está aberto ao “vinho novo” de Deus. Contudo amados irmãos, levanto o seguinte questionamento:

Como saber então se uma profecia ou ato profético veio de Deus?

Jeremias 28:9 que diz:

“- O profeta que profetizar de paz, quando se cumprir a palavra desse profeta, será conhecido como aquele a quem o Senhor na verdade enviou. “·.

Note que o texto nos dá uma condicional para que um profeta seja tido como enviado do Senhor. A condição é que sua profecia tenha cumprimento.

Em Isaías 8: 19 a 20 a Bíblia também declara:

 “- Quando, pois, vos disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e murmuram: Porventura não consultará o povo a seu Deus? A favor dos vivos consultar-se-á aos mortos? A lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles.”

No texto acima a Bíblia questiona se devemos buscar orientação de mortos em favor dos vivos. Logo em seguida o próprio texto traz a resposta dizendo a quem devemos consultar. A lei e ao testemunho. Ou seja, se alguém profetizar e suas palavras não estiverem de acordo com a lei do Senhor não há verdade em quem profetiza. Para uma profecia ou ato profético ter validade e respaldo de Deus, precisa atender a esses dois critérios: Ter cumprimento real daquilo que foi profetizado e estar de acordo com a Palavra de Deus. Com base nisso examinemos e julguemos se uma profecia veio ou não do Senhor.

Conclusão:

É assustador presenciar em muitas igrejas tantas doutrinas baseadas em versículos isolados das Escrituras. A função profética e tudo que diz respeito ao ministério profético tem sofrido uma banalização sem precedentes. Tudo é profético. O louvor é profético, a adoração é profética, a palavra é profética, a dança é profética, a intercessão é profética, o ensino é profético, etc.

Lembro-me que há alguns anos, várias igrejas faziam críticas severas a uma igreja evangélica (a qual não citarei o nome), afirmando que esta igreja estava se assemelhando a uma seita devido o uso de vários rituais e símbolos em seus cultos como, por exemplo: tocar no manto do Pai das luzes, usar a rosa vermelha ungida no umbral das portas, etc. Todavia essas igrejas têm caído no mesmo erro. Creio plenamente no ministério profético e na importância da profecia para a edificação da igreja de Cristo, porém como já vimos, se um ato profético não tiver um cumprimento real, nem estiver alinhado com a Palavra de Deus, sem dúvida não veio de Deus, mas é na realidade uma invenção humana.

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