Cobertura apostólica e a Bíblia…




A cobertura apostólica

Introdução:

A noção da “cobertura apostólica” é semelhante à da “cobertura espiritual”, mas com uma característica própria. Esse ensino sustenta que uma igreja está protegida se se submete a autoridade de um apóstolo contemporâneo. Isto se baseia na ideia de que os apóstolos têm autoridade oficial para controlar e dirigir os assuntos de uma igreja. A Bíblia, no entanto, opõe-se a esta ideia. Em nenhuma parte do Novo Testamento encontramos que um apóstolo tenha assumido a plena responsabilidade de uma igreja local existente. Ou seja, uma vez estabelecidas, os apóstolos reconheciam e respeitavam a autonomia espiritual de cada igreja.

É verdade que a igreja estava sob os cuidados dos apóstolos durante o tempo em que estabeleciam o fundamento, mas a responsabilidade ficava nas mãos da igreja quando este seguia em frente, cumprindo seu chamado de pregar o Evangelho e fundar novas igrejas. No começo da vida de uma igreja, o ônus da supervisão pertence ao apóstolo. Este período se assemelha a uma fase de encubação. O apóstolo passa algum tempo ministrando Cristo aos santos e equipando lhes para o ministério. Foi por esta razão que Paulo alugou uma casa para realizar reuniões apostólicas junto com as reuniões da igreja (Atos 28:30-31). Fez algo similar quando esteve em Éfeso. Levava a cabo reuniões apostólicas na escola de Tirano enquanto os crentes locais se reuniam nas casas (Atos 19:9; 20:20; 1Cor. 16:19). Uma vez que o apóstolo punha o fundamento e deixava os santos por sua conta, delegava toda a supervisão e a responsabilidade a igreja local. Desta maneira os apóstolos do primeiro século nunca se estabeleciam numa igreja para controlar seus assuntos.  Ainda que Paulo algumas vezes passasse um longo período de tempo plantando uma igreja (em Corinto 18 meses e em Éfeso 3 anos), uma vez que o fundamento estava estabelecido, sempre deixava a estas igrejas por sua conta.

O que a Bíblia nos diz?

Um estudo cuidadoso das viagens apostólicas de Paulo revela o fato surpreendente de que em geral, passava muito pouco tempo com as igrejas que plantava. Como era seu costume, Paulo passava vários meses estabelecendo a base de uma comunidade de crentes, só para deixá-la por sua conta por longos períodos de tempo. Sempre estava disposto a dar-lhes conselho (1 Cor. 7:1). Também lhes visitava periodicamente para comprovar seu progresso e fortalecê-las (Atos 15:36; 18:23; 2 Cor. 12:14; 13:1), mas não se encarregava de seus assuntos. A prática de deixar as igrejas em sua infância nos deixa ver o fato surpreendente de que Paulo cria que a igreja era um organismo vivente capaz de desenvolver-se por si mesmo, pelo poder da vida de Deus. Sabia que quando deixava uma igreja, o Espírito Santo ficava com ela. Ao mesmo tempo, as igrejas que Paulo plantava recebiam ajuda de outras igrejas (Atos 16:2; 1 Tes.1:7-8). Também estavam em contato constante com ele. De fato, ainda depois de doze anos, a igreja em Filipos ainda precisava do ministério espiritual de seu apóstolo fundador (Fil. 1:23-27).

Os apóstolos são responsáveis por plantar e nutrir as igrejas em muitos lugares diferentes. Biblicamente falando nunca se estabeleciam permanentemente nas igrejas que plantavam, nem assumiam autoridade exclusiva sobre elas. Os apóstolos foram servos valiosos para as primeiras igrejas, nunca usurpadores (1 Cor. 4:1). Não se conduziam como presidentes executivos ou chefes distantes acima das assembleias. Em outras palavras, os apóstolos do primeiro século eram plantadores e não suplantadores de igrejas. Eram assistentes, e não aristocratas espirituais. Eram servos, não chefes eclesiásticos. Eram instaladores de alicerces, não celebridades do culto. Os apóstolos do primeiro século instruíam e persuadiam às igrejas, jamais as controlavam. Os verdadeiros apóstolos, portanto, não procuram glória. Não tratam de impressionar o povo (2 Cor. 11:5 – 6; 1 Tes. 2:5-6). Não procuram ganhos financeiros (2 Cor. 2:17; 11:9), nem dominar as vidas dos demais (2 Cor. 1:24). Os verdadeiros obreiros não ostentam credenciais impressionantes (2 Cor. 3:1-3). Não afirmam possuir uma herança superior ( 2 Cor. 11:21-22), nem se orgulham de experiências espirituais extraordinárias (2 Cor. 10:12-15; 11:16-19; 12:1,12). Para Paulo, os apóstolos não são uma elite espiritual que proclama ou promove a si mesmos. São os que derramam seu sangue pelas igrejas. Como todo líder verdadeiro, os apóstolos sempre são encontrados servindo discretamente a cada um e a todos que estão em necessidade. Apossar-se do poder e exercer a própria autoridade sobre os demais não é apostolado. É nada mais que um reflexo rançoso de outra versão da opressão. Os verdadeiros apóstolos são antes de tudo servos. Para as igrejas, Paulo não é um senhor ou rei. Ele é como um pai, uma mãe e um servo (1 Cor. 3:2; 4:14-15; 2 Cor. 12:14; Gál. 4:19; 1 Tes. 2:7,11).

Assim mesmo, as alusões descritas em suas cartas, mostram que tratava as igrejas como um pai faria com seus filhos adultos, e não como a meninos pequenos. Como pai, dava sua opinião a respeito dos assuntos da igreja, mas não emitia decretos unilaterais. A carta de 1 Coríntios é um claro exemplo desta orientação. Atinge seu ponto crítico quando Paulo oferece seu conselho com respeito a como tratar a um irmão que tinha cometido incesto. Convoca a toda a igreja para que o discipline (1 Cor. 5:1-13). Efetivamente, as igrejas que plantou, progressivamente deixaram de depender dele e cresceram em sua dependência de Cristo (1 Cor. 2:1-5). Paulo lhes exortava a andar por este caminho (1 Cor. 14:20; Ef. 4:14).

O Ministério Apostólico Hoje

Em nossos dias não faltam os que se auto intitulam “apóstolos”. Estes promulgam decretos autoritários e constroem impérios cristãos. Como resultado, muitos cristãos perspicazes concluíram que os apóstolos já não existem mais. É notório, no entanto, que Deus levantou genuínos apóstolos neste século. Estes são os que caminharam e estão caminhando no espírito de Paulo. Como sucede com Paulo, estes obreiros não estão interessados em construir impérios cristãos nem em iniciar movimentos. Também não ambicionam atingir um status de celebridade (1 Cor. 1:13; 3:7,21).

Os verdadeiros apóstolos são os que se ocultam a si mesmos e não os que procuram aparecer. Sua obra em grande parte não se vê. Seu serviço passa frequentemente despercebido. Os servos verdadeiros não edificam denominações, programas, missões, edifícios ou organizações para-eclesiásticas! Eles edificam exclusivamente a Ekklesia de Jesus Cristo! E, além disso, não andam anunciando que são apóstolos! De fato, é muito provável que nem sequer lhes agrade este termo. E já que não fazem parte do espetáculo espiritual, não os encontrarás figurando em alguma igreja organizada ou movimento. Também não os verás (normalmente) nos tabloides cristãos. Sendo menores em número do que os extravagantes e atraentes “super apóstolos” de nosso tempo, os verdadeiros obreiros penetram cada vez mais profundamente no eterno propósito de Deus em Cristo. Isto se deve ao fato de que estão edificando Sua igreja à Sua maneira. Tudo isto se traduz na seguinte fórmula simples: Os cristãos modernos devem ser sabedores de sua necessidade do ministério apostólico, no entanto, cautelosos com respeito aos que se autodenominam “apóstolos”.

Que a graça de Jesus seja com todos. Amém!





Tags: ,


Sobre o autor



1 Resposta para Cobertura apostólica e a Bíblia…

  1. João Lucas

    Muito bom esse post…
    Não encontramos em nenhuma parte da Palavra de Deus qualquer referência, clara ou até mesmo implícita, de que Deus dá autoridade a alguém para prover uma “cobertura espiritual” a outras pessoas.Insisto que em nenhum lugar da Bíblia Deus deu autoridade aos crentes sobre outros – Mateus 20.25,26; Lc 22.25,26. A autoridade que deve existir na vida da igreja é orgânica (baseada na vida espiritual – não é intrínseca à pessoa – não reside na própria pessoa) e não oficial (por causa do Titulo ou oficio).

    Os prejuízos advindos desse tipo de ensino são vários:

    1. Intromissão na vida pessoal: A autoridade pastoral ou episcopal não pode descer ao detalhamento da vida – Com quem casar? Vender casa e comprar apto? Que proposta de emprego devo aceitar?

    2. Gera crentes imaturos – estão sempre dependendo de pessoas para tomar decisões. Pra comprar, vender, viajar, casar, namorar, etc;

    3. Abusos espirituais de líderes – às vezes, mal intencionados: Objetivos escondidos manipulam e controlam – são dominadores do rebanho. Mecanismo controlador e não protetor;

    4. Culto à personalidade – ânsia pelo poder;

    5. Gera decepções: pessoas sinceras e desejosas de conhecerem a vontade de Deus, tomaram decisões erradas confiando na liderança;

    6. Gera a “cultura do medo”: crentes sinceros vivem com medo e na insegurança, pois seu “líder” diz que se ele não estiver debaixo de proteção espiritual, será uma presa fácil do diabo;

    Espero que outras pessoas tenham a oportunidade de ler esse post e ter suas consciências iluminadas pela Verdade de Deus.

    João Lucas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

Back to Top ↑