E a terra era sem forma e vazia…

E a terra era sem forma e vazia…

Alguns teólogos na tentativa de conciliar a narrativa bíblica da criação com as descobertas da ciência adotaram a teoria da restituição. Esta foi defendida por Chalmers, Buckland, Wisemann e Delitzch, e supõe que transcorreu um longo período entre a Criação primária, mencionada em Gn. 1:1, e a Criação secundária, descrita em Gn. 1:3-31. Esse longo período foi marcado por várias mudanças catastróficas, resultando na destruição supostamente descrita pelas palavras “sem forma e vazia”. Essa destruição foi seguida por uma restituição ou restauração da criação, quando Deus transformou o caos em Cosmos, um mundo habitável para o homem. Mas segundo essa teoria, o que causou a destruição da Criação primária descrita em Gn. 1:1? Segundo os que defendem essa teoria, a queda de Lúcifer e da terça parte dos anjos descritos em Apocalipse 12, gerou a completa destruição da criação de Deus. Após esse acontecimento a Terra se tornou sem forma e vazia.  Deus então inicia a Criação secundária onde restaura a Terra que outrora havia sido destruída pela queda de Lúcifer.

Chegamos aos seguintes questionamentos:

Essa teoria encontra algum fundamento na Bíblia? Com Base em que se acredita que a Criação inicial foi destruída e restaurada por Deus?

Os que creem nessa teoria geralmente recorrem a passagens como Is. 24:1; Jr. 4:23 – 26; Jó 9:4 – 7; 2Pe 2:4, mas uma das principais referências usadas para defender a teoria é Isaías 45:18 que diz:

“- Porque assim diz o Senhor que tem criado os céus, o Deus que formou a terra, e a fez; ele a confirmou,não a criou vazia, mas a formou para que fosse habitada: Eu sou o Senhor e não há outro.”

A conclusão que se tenta chegar ao comparar Gn.1:2 e Isaías 45:18 é que há uma aparente contradição entre as passagens, sendo esta explicada pela teoria em questão. De uma forma simplista segue-se a seguinte linha de raciocínio: “- Como pode um Deus perfeito criar algo sem forma e vazio? Deus não pode ter criado a Terra sem forma e vazia, e, portanto ocorreu algo que gerou esse caos.”.

Todavia esta teoria nunca encontrou apoio nas Escrituras. Ela é fruto de uma interpretação forçada que tenta conciliar aparentes contradições bíblicas. A Bíblia não diz que a terra se tornou sem forma e vazia, mas que era sem forma e vazia. E mesmo que se possa traduzir o verbo hebraico hayetha por “tornou-se”, as palavras “sem forma e vazia” denotam uma condição não formada, e não uma condição resultante de destruição. Outro problema nessa teoria é que na tentativa de resolver aparentes contradições bíblicas, gera outras contradições. Por exemplo: A Bíblia nos ensina claramente que Deus criou os céus e a terra “e todo o seu exército” em seis dias, Gn. 2:1; Êx. 20:11. Ou seja, se aceitarmos que essa teoria seja verdade, a criação levou mais do que seis dias para ser concluída.

Como podemos então interpretar a passagem de Isaías 45:18?

Note que o texto diz:

“o Deus que formou a terra, e a fez; ele a confirmounão a criou vazia, mas a formou para que fosse habitada: Eu sou o Senhor e não há outro.”

Note que o texto usa os termos “formou”, “fez” e “confirmou”. Essas ações indicam um processo. O próprio versículo explica o significado da expressão “não a criou vazia”, quando logo em seguida conclui com a sentença “mas a formou para que fosse habitada”. Ou seja, a palavra “vazia” se refere ao estado inicial da terra quando Deus ainda não havia criado os seres vivos.

Pense na seguinte situação: Um pintor ao idealizar sua arte, inicialmente precisa ter a base sobre a qual irá pintar seu quadro. A tela inicialmente não possui forma e está totalmente branca. Após misturar de forma hábil as cores e usar toda sua técnica o pintor consegue pintar uma bela obra de arte. Da mesma forma o primeiro capitulo de Gênesis descreve um processo pelo qual Deus realiza uma criação por etapas, que encontra seu ápice na criação do homem.

Vamos compreender o texto de Gn. 1:2 onde está escrito:

“- E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.”

Segundo a terceira regra da hermenêutica, é necessário tomar as palavras no sentido indicado no contexto, a saber, os versículos anteriores e posteriores ao texto que se pretende estudar. Pelo contexto identificamos palavras, expressões e outros versículos que definem o significado da palavra obscura.

Vejamos então o que está escrito em Gênesis 2: 4 – 6:

“- Eis as origens dos céus e da terra, quando foram criados. No dia em que o Senhor Deus fez a terra e os céus não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois nenhuma erva do campo tinha ainda brotado; porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, nem havia homem para lavrar a terra. Um vapor, porém, subia da terra, e regava toda a face da terra.”

 O texto acima explica o significado da expressão “sem forma e vazia” em Gn. 1:2. Fica nítido que assim como em Isaías 45:18, a expressão “sem forma e vazia” de Gn.1:2 faz alusão a não existência de qualquer ser vivo nesse instante inicial da Criação.

Concluímos que uma cuidadosa leitura dos textos já citados é suficiente para nos convencer de que eles não provam a teoria da restituição.

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