Há Apóstolos em nossos dias?

Há Apóstolos em nossos dias?

Através dos séculos as igrejas cristãs vêm definindo padrões diferentes de governo eclesiástico, divergindo quanto ao entendimento mais apropriado do modelo bíblico. O Novo Testamento menciona três ofícios de liderança na Igreja: apóstolos, presbíteros (ou bispos, ou pastores; os três termos são usados nas Escrituras significando o mesmo ofício, cf. Tt 1:5-7; At. 20: 17; 28) e diáconos. Historicamente, entretanto, houve um consenso de que o ofício apostólico não mais existe na Igreja. Contudo não há nenhum versículo bíblico que diga explicitamente que não pode haver apóstolos nos dias de hoje. Existem muitas dúvidas e questionamentos sobre esse assunto. Isso obviamente levanta a questão: haverá base bíblica para se ordenar apóstolos nos dias de hoje? É bíblico que igrejas denominem seus líderes apóstolos?

A primeira coisa a ser feita para que tais questões sejam respondidas é examinar o conceito bíblico do apostolado, sua função, responsabilidade, e quais são as premissas para que uma pessoa possa ser considerada apóstolo.

A final de contas, o que significa o termo apóstolo?

Há dois sentidos básicos para o termo “apóstolo”. De uma forma mais ampla, o termo se refere a qualquer pessoa que seja um enviado de Deus através da Igreja para uma obra específica, seja de liderança ou não (Fl. 2:25). Esse significado provém da correlação entre o substantivo “apóstolo” (ἀπόστολος) e o verbo em grego que significa “enviar” (ἀποστέλλω). Nesse sentido mais amplo, não há dificuldade em se aceitar que qualquer pessoa pode ser um apóstolo de Deus. Qualquer pessoa pode ser enviada, por exemplo, para o trabalho missionário, e, nesse sentido amplo, ela é um apóstolo.

No Novo Testamento, porém, o sentido mais comum do termo “apóstolo” é o restrito. De forma restrita esse termo só é aplicável aos 12 escolhidos por Jesus e a Paulo.

Os apóstolos e as Sagradas Escrituras

Para uma compreensão do papel dos apóstolos como fundamento da Igreja de Cristo, é de suma importância saber que o Novo Testamento foi escrito por eles e por seus companheiros mais próximos, sob a inspiração de Deus. A eles foi dada, pelo Espírito Santo, a habilidade de lembrarem-se precisamente das palavras e ensinamentos de Jesus, para que as ensinassem de maneira verbal e escrita.

Por causa disso, os apóstolos consideraram seus escritos como sendo do mesmo nível de inspiração e autoridade dos escritos do Antigo Testamento. Eles tinham consciência de que seus escritos também eram as Escrituras inspiradas de Deus. A citação abaixo comprova isso:

 “- Ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles”. (2 Pedro 3:16)

Perceba que a palavra traduzida “Escrituras” em 2 Pe. 3:16 ocorre 51 vezes no texto grego do Novo Testamento, e ela se refere ao Antigo Testamento (ou seja, não a quaisquer escritos, mas à Palavra de Deus). Desse modo, Pedro de forma clara coloca as epístolas de Paulo no mesmo nível de autoridade e inspiração do Antigo Testamento.

Os apóstolos, por seu ofício apostólico, tinham a autoridade para receber a revelação direta da Palavra de Deus e escrevê-las para o uso da Igreja. Historicamente isso foi o primeiro critério para que um documento fosse considerado pela Igreja Primitiva, como sendo parte do Novo Testamento.

Você pode se perguntar: “- Mas quanto aos evangelhos de Marcos e Lucas, do livro de Atos, da epístola aos Hebreus e a epístola de Judas? Marcos, Lucas, e Judas (não o Iscariótes) não eram apóstolos, e não se sabe com certeza quem foi o autor da epístola aos Hebreus. Por que esses livros foram aceitos pela Igreja Primitiva com sendo inspirados por Deus?”.

Tais livros foram aceitos porque, além de outros fatores, seus autores eram companheiros próximos dos apóstolos, e escreveram sob sua supervisão. A evidência bíblica e histórica é que Lucas escrevia sob a supervisão de Paulo, e Marcos sob a supervisão de Pedro. Judas era irmão de Jesus. A epístola aos Hebreus era considerada por muitos como sendo de autoria de Paulo, e outros a consideraram como autêntica por refletir claramente os ensinamentos dos apóstolos.

O fato de o Novo Testamento ter sido produzido quase que em sua totalidade pelos apóstolos, é de vital importância para o entendimento do apostolado. Os apóstolos foram comissionados diretamente por Jesus para trazerem suas Palavras inspiradas à Igreja. Ninguém tinha o direito de alegar ter autoridade divina para seus escritos se esta pessoa não fosse um apóstolo ou um de seus companheiros. Ninguém, na história subsequente da Igreja, jamais teve o direito de incluir seus escritos nas Escrituras Sagradas, pois o cânon da Bíblia foi completado após a morte de João, o último apóstolo.

Prerrogativas Bíblicas para ser considerado um apóstolo

1. O apóstolo tinha de ter recebido sua comissão apostólica diretamente de Jesus. (Lucas 6:13-16; cf. Mt. 10:1-7; Mc. 3:14)

Por esta razão, quando da apostasia de Judas e da necessidade de que seu ofício fosse preenchido por outro, os apóstolos buscaram a comissão direta de Deus. (Atos 1:21-26).

O apostolo Paulo compreendia tanto isso que fez questão de ressaltar que seu chamado havia sido não por homens, mas sim pelo próprio Jesus.

“- Paulo, apóstolo, não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos, (Gálatas 1:1)

2. O apóstolo tinha de ser testemunha ocular de Jesus ressurreto.

Vemos que o substituto de Judas Iscariotes, não poderia ser qualquer pessoa dentre os discípulos, mas alguém que viu Jesus ressurreto:

É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição. (Atos 1:21-22)

Paulo, por sua vez, também foi testemunha ocular de Jesus ressurreto. Assim sendo, Paulo faz questão de ressaltar que sua credencial apostólica também era baseada no fato de que ele era testemunha ocular de Jesus ressurreto:

 “- Depois, foi visto por Tiago, mais tarde, por todos os apóstolos e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus.” (1 Coríntios 15:7-9)

O que Paulo quis dizer com a expressão: “-… depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo.”?

Acredito que Paulo tinha a consciência de ele era o último apóstolo chamado por Jesus. A expressão “como um nascido fora de tempo”, nos leva a crer que Paulo, embora não tenha sido contado inicialmente entre os 12 apóstolos, foi chamado posteriormente pelo próprio Jesus, sendo ele o último apóstolo no sentido mais restrito do termo.

3. Existem sinais que demonstram as marcas do apostolado.

Paulo afirma isso em 2Co. 12:11 – 12:

“-…visto que em nada fui inferior aos “superapóstolos”, ainda que eu nada seja. De fato as características de um apóstolo foram manifestas entre vós com grande perseverança, por meio de sinais, feitos extraordinários e milagres.”

Frágeis argumentos

Por que algumas pessoas acreditam haver em nossos dias apóstolos da mesma envergadura dos doze escolhidos por Jesus?

Mais uma vez essa compreensão vem de uma interpretação parcial das Escrituras. Prefere-se ignorar as prerrogativas bíblicas para que uma pessoa seja considerada apóstolo. Geralmente os que defendem a ideia de que há apóstolos nos dias de hoje fundamentam essa afirmativa sobre alguns textos isolados das Escrituras, sem contudo avaliar tudo o que a Bíblia diz sobre o ministério dos apóstolos. Veremos adiante alguns textos que são utilizados para fundamentar esses ensinamentos e constataremos sua fraca e superficial fundamentação.

1° argumento: Os apóstolos atuais são o fundamento da igreja.

Na carta de Paulo aos Efésios 2:20 está escrito:

“- Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra de esquina.”

Argumento: Com base no texto acima se afirma que os apóstolos atuais são o fundamento da igreja. A igreja sem apóstolos é uma igreja sem base, sem “cobertura espiritual”, sem alicerce.

Refutação: Novamente ocorre acima o erro mais comum na interpretação da Bíblia. Não se podem tomar textos isolados, tirá-los do seu contexto e dar a estes o significado que não tem. Vemos nesse texto que Paulo compara a Igreja de Cristo a um edifício. Os doze apóstolos são o alicerce e nós somos a construção. Quando se inicia a construção de um edifício, qual a primeira etapa a ser feita? É exatamente estabelecer as bases. Se há apóstolos em nossos dias teremos que aceitar que o concreto ainda está sendo derramado. Que as bases ainda estão sendo estabelecidas. Biblicamente falando, contudo não é isso que vemos. A Bíblia deixa claro que os doze apóstolos são o fundamento da igreja de Cristo. Para que não restem dúvidas de que apenas os doze apóstolos são o fundamento da igreja de Cristo vejamos o que diz Apocalipse 21:9-14:

“- Então, veio um dos sete anjos que têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do CordeiroA muralha da cidade tinha doze fundamentos, e estavam sobre estes os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.”

O texto acima deixa claro que a igreja, a noiva do cordeiro que habitará na santa cidade, está alicerçada sobre doze fundamentos, e sobre cada fundamento está o nome dos doze apóstolos do cordeiro. Esse texto não é uma referência isolada para tentar comprovar que apenas os doze apóstolos são o fundamento da igreja. Vejamos o que diz Paulo em 1 Co. 3:10:

“- Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o alicerce como sábio construtor, e outros edificam sobre ele.”

O papel da igreja de Jesus não é lançar os alicerces. Estes já foram postos. Nosso papel é de edificar a igreja de Cristo sobre esse fundamento. Creio que essa edificação está quase no fim e as últimas “pedras vivas” estão sendo postas sobre o fundamento antes da vinda de nosso Senhor Jesus para buscar sua noiva naquele grande dia.

2° argumento: Além dos doze apóstolos e de Paulo, a Bíblia se refere a outras pessoas como apóstolos e, portanto isso comprova que o ministério apostólico teve continuidade mesmo após a morte de João, o último dos apóstolos vivos. (At. 14:14; 1 Co. 9: 5 – 6; Gl. 1:19; Fl. 2:2; 1 Co. 4:9; Rm. 16:7)

Argumento: Os textos acima elencados mostram que, por exemplo: Barnabé, Thiago(irmão de Jesus), Epafrodito, Apolo, Andrônico e Junias foram também denominados apóstolos. Portanto também deve haver apóstolos em nossos dias.

Refutação: Esses valorosos servos de Deus realmente foram apóstolos, mas no sentido amplo do termo, significando que eles foram separados e enviados por Deus para realizar uma obra específica. Isso não invalida em nada a grande obra que esses homens fizeram. Os sinais de seu chamamento e apostolado se comprovam pelo testemunho das Escrituras. Como já vimos nesse estudo o termo apóstolo possui um significado mais restrito se referindo aos doze e a Paulo, e um significado mais amplo se referindo a qualquer pessoa enviada a uma obra específica. Cito aqui como exemplo, Hebreus 3:1 que diz:

“- Portanto, santos irmãos, participantes do chamado celestial, considerem com atenção o Apóstolo e Sumo Sacerdote que declaramos publicamente, Jesus.”

Aqui a Bíblia se refere a Jesus como Apóstolo, significando que ele foi enviado por Deus como mediador de uma nova e eterna aliança. Fica claro que o termo apóstolo, usado no texto acima, está sendo empregado no sentido mais amplo da palavra.

Conclusão: Durante toda a história posterior da igreja cristã, mesmo após a morte dos apóstolos, Deus levantou homens valorosos para anunciar o evangelho e trazer um avivamento em suas épocas. Homens como, por exemplo: Lutero, João Wesley, Carlos Finney, Hudson Taylor, dentre outros. Homens que embora não ostentassem um título, traziam sobre si as marcas do chamado celestial. Foram verdadeiros apóstolos em meio a uma época de grande decadência moral e espiritual. Em contraste com esses belos exemplos, vemos algumas pessoas em nossos dias que se autodenominam apóstolos, mas que não trazem em si mesmos as marcas do apostolado.

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