Porque um só é vosso Pai.

Porque um só é vosso Pai.

“- E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus.” (Mt. 23:9)

Parece-me que quando Jesus declarou isso ele pode vislumbrar o cenário atual da Igreja. Isso me faz refletir sobre o fato de que em boa parte das igrejas neopentecostais, está cada vez mais banalizado o uso do termo “pai”. É óbvio que o texto citado não deve ser interpretado de forma literal, pois há inúmeras passagens da Bíblia mostrando que devemos honrar nossos pais e que não há problemas em usar esse termo. (Dt 5:16, Ef 6:2, II Rs 2:12, II Rs 6:21)

Porém isso nos leva a seguinte indagação:

O que Jesus quis dizer com a expressão: “-E a ninguém na terra chameis vosso pai”? A resposta a essa pergunta está no próprio contexto do livro de Mateus onde lemos:

“- Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos…Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo.” (Mateus 23:8 – 10)

Este texto é uma advertência contra procurar títulos de honra para alimentar o orgulho. Obviamente, devemos evitar um literalismo insensato ao aplicar esses mandamentos. A Bíblia de Jerusalém se referindo à palavra pai neste versículo diz:

“A palavra Abba (pai), também é usada como título de honra”.

R.V.G.Tasker em seu comentário de Mateus pela editora Mundo Cristão declara:

“Pai (Abba), o equivalente aramaico deixa claro que se tem em mente “pai espiritual”. Abba não era modo comum de dirigir-se a uma pessoa viva, mas um título de honra para os rabis e para os grandes do passado”.

Apesar dessa advertência de Jesus dizendo que todos nós somos irmãos, e que não devemos buscar de forma orgulhosa títulos, ou tratamentos especiais, alguns líderes preferem ser chamados de “Pai”, acreditando que receberam de Deus a autoridade e paternidade sobre a Igreja de Jesus. Outros se autointitulam “Paipostolo”. Outros atribuíram si mesmos o título “Patriarca” e essa lista de invencionices é interminável. O que é mais incrível em tudo isso é que há pouca ou nenhuma fundamentação Bíblica para esse tipo de prática. Não vemos no Novo Testamento pessoas chamando apóstolos de pai. Não vemos pastores orientando a Igreja a chama-los de pai. A alguns anos traz a igreja evangélica criticava o catolicismo pelo fato de denominar seus líderes de “Padre” ou “Papa”, cuja a origem desses termos remete a palavra pai. Agora esses críticos querem incorrer no mesmo erro. Alguns na tentativa de querer achar base Bíblica para isso citam, por exemplo, 1 Timóteo 1:2:

“- A Timóteo meu verdadeiro filho na fé: Graça, misericórdia e paz da parte de Deus nosso Pai, e da de Cristo Jesus, nosso Senhor.”

Onde no texto acima há orientação para que Timóteo chame Paulo de pai? Paulo declara que Timóteo era seu filho na fé pelo fato de ele ter sido ganho para Jesus por sua pregação. O apostolo Paulo além de ter pregado o evangelho a Timóteo, assim como um pai, orava, exortava-o, ensinava-o encorajando-o a perseverar na fé. Paulo dizia a Timóteo que ninguém desprezasse a sua juventude, mas que ele fosse o exemplo dos fiéis. É lindo ver que existe uma relação de amor e respeito entre mestre e discípulo. Essa relação não é pautada no paternalismo e assistencialismo, ou em dependência doentia, mas sim na fé e no amor que emancipa o discípulo afim de que esse possa prosseguir a caminhada cristã com maturidade.

Infelizmente hoje em boa parte das igrejas, alguns líderes cultivam uma relação de dependência doentia e perpétua com seus liderados. Ovelhas que são tão dependentes de seus líderes que se forem comprar uma casa, ou se forem mudar-se, ou se planejarem construir uma empresa, precisam consultar o “pai espiritual” para saber se aquilo é vontade de Deus ou não. Se Deus precisa usar um profeta para nos trazer um recado, isso na maioria das vezes não é um bom sinal. Indica que não temos intimidade suficiente com Deus para que Ele fale diretamente a nós.

A Bíblia declara no Salmos 127:4:

“- Como flechas nas mãos do guerreiro são os filhos nascidos na juventude.”

Quando se lança uma flecha não se amarra uma corda à mesma. O objetivo dos líderes deve ser preparar seus liderados para que no momento certo, estes sejam lançados às nações como flechas. Assim estes terão um alvo, uma direção e cumprirão seu chamado no reino de Deus. Você já viu um pai se relacionar com um filho apenas por telefone, ou por meio de vídeos ou cartas? Creio que não, pois a relação entre pai e filho requer toque, amor, afago, abraço, cuidado, dedicação. Como crer que um líder que nunca o viu, que não sabe seu nome, nem conhece sua história, seu contexto local, possa querer ser chamado por você de pai?

Conclusão: Há um só Deus e Pai. Deus pode usar servos valorosos que cuidem de nós como bons pastores, como autoridade instituída por Deus, edificando-nos e permitindo que possamos cumprir o ide de Jesus. Podemos ter muitos filhos na fé, podemos ser filhos na fé de alguém, mas atribuir a um líder o termo “Pai” sem o devido entendimento dessa relação trará apenas falsa impressão de adoção e cuidado, e como resultado final fragmentação da relação de amor na igreja e distorção de como vemos Deus e sua paternidade agindo em nossa vida.

Que a paz seja com todos. Amém!

 

 

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